THE BEATLES com o maravilhoso Abbey Road.

Sempre que falamos de música é inevitável não lembrar daquela que é considerada por quase todos como a maior banda da história, os Beatles, quando no início dos anos 60 eles revolucionaram toda uma geração, mudaram o formato de fazer música e foram fundamentais também na cultura popular, sendo um fenômeno global sem precedentes com a Beatlemania e a forma com que as pessoas ouviam suas músicas. Alcançaram um status de popularidade tão grande que em dado momento John Lennon falaria uma de suas frases mais polêmicas: “Somos mais populares que Jesus”. Daí podemos ter uma noção da importância dos quatro garotos de Liverpool na cultura popular.

Em 1969, a banda já não tinha mais a mesma sintonia de outrora, uma vez que a relação entre seus líderes estava muito tensa. John Lennon e Paul McCartney já não falavam a mesma língua, principalmente após a tensa sessão de gravação para o famoso “Álbum Branco” de 1968, que resultou numa série de conflitos entre todos os integrantes, culminando inclusive na saída temporária de Ringo Starr da banda.

Beatles Abbey Road
FOTO: ETHAN RUSSELL

Os problemas iam além, as questões financeiras eram outro ponto de discórdia entre os integrantes, já que após a morte do empresário Brian Epstein, o grupo ficou totalmente sem rumo nos negócios e tampouco tinham grande experiência no assunto. As vaidades pessoais, guerra de poderes e posições divergentes começaram a aflorar demais quando Paul sugeriu que o renomado advogado Lee Eastman, e pai de sua então namorada, Linda Eastman, tomasse à frente dos negócios dos Beatles. Os outros três queriam o promotor Allen Klein, que trabalhava com os Rolling Stones, e aí começava uma guerra interna, pois McCartney achava um absurdo ter que pagar 15% de todos os lucros da banda para Klein.

No final das contas, a banda fechou com Allen Klein, sem a assinatura de Paul McCartney que nunca concordou com a escolha, que anos mais tarde trouxe vários problemas aos outros três Beatles, onde brigaram judicialmente contra Klein e tiveram que pagar cerca de 5 milhões de dólares ao empresário já em 1977.

Após todos esses problemas, a banda voltaria a gravar mais um disco e em 26.09.1969, foi lançado o décimo-segundo disco da carreira dos Fab Four, o último gravado pelos Beatles e o penúltimo lançado, o antológico “Abbey Road”, que leva o nome da rua de Londres onde fica o lendário estúdio de mesmo nome.

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A capa merece ser destacada, temos nela simplesmente uma das fotos mais icônicas de todos os tempos, que foi tirada pelo fotografo Iain Macmillan em 08.10.1969, numa sessão de fotos que durou dez minutos do lado de fora dos estúdios Abbey Road. A ideia inicial foi de Paul McCartney que escolheu aquela foto que mais gostou. A foto que até hoje gera comentários dos fãs, já foi tema de diversas histórias e teorias, como por exemplo que McCartney estaria morto e os fãs associavam vários elementos da foto para crer nessa história.

É um disco especial na carreira dos Beatles e mostra que além de Lennon & McCartney, outro notável compositor se firmava dentro do grupo, o guitarrista George Harrison, que trouxe pérolas como “Here Comes The Sun” e “Something”, esta última que chegou a ser apontada em dado momento como a melhor música do mundo pela revista americana “Time”.

São 17 faixas em aproximadamente 47:23 minutos, mostrando toda a genialidade do quarteto de Liverpool, com sua formação clássica: John Lennon (Voz, guitarra, piano, sintetizadores e percussão), Paul McCartney (Voz, baixo, piano, sintetizadores, percussão e efeitos sonoros), George Harrison (Guitarras, voz, baixo e sintetizadores) e Ringo Starr (Bateria, voz e percussão).

Mesmo após todas as brigas, quando eles se reuniam para fazer músicas eram imbatíveis. Letras que falam de amor, relacionamentos, politica, dinheiro, ressentimentos, animais, situações pessoais e comportamentos. O disco foi lançado com dois lados bem distintos, o primeiro (Lado A) foi feito para agradar John Lennon e o segundo (Lado B) para agradar Paul McCartney. Esse foi o primeiro disco da banda em estéreo e não em mono como era feito até então, também foi marcado pelo uso de novos recursos tecnológicos como o uso do sintetizador Moog, que possibilitava virtualmente que qualquer som fosse gerado eletronicamente.

Todas as canções são de Lennon/McCartney, exceto onde indicado:

Lado A


1 – “Come Together” (4:19)
2 – “Something” (George Harrison) (3:02)
3 – “Maxwell’s Silver Hammer” (3:27)
4 – “Oh! Darling” (3:27)
5 – “Octopus’s Garden” (Richard Starkey) (2:51)
6 – “I Want You (She’s So Heavy)” (7:47)


Lado B

1 – “Here Comes the Sun” (George Harrison) (3:05)
2 – “Because” (2:45)
3 – “You Never Give Me Your Money” (4:03)
4 – “Sun King” (2:26)
5 – “Mean Mr. Mustard” (1:06)
6 – “Polythene Pam” (1:13)
7 – “She Came In Through the Bathroom Window” (1:58)
8 – “Golden Slumbers” (1:31)
9 – “Carry That Weight” (1:36)
10 – “The End” (2:05)
11 – “Her Majesty” (0:23)
Gravadora: Apple Records / Produção: George Martin 

O disco todo é maravilhoso e vamos aqui falar das canções mais conhecidas, como por exemplo “Come Together” que Lennon compôs para Timothy Leary, que concorria a governador na Califórnia e queria um slogan forte de campanha, daí o verso “Come Together” (Venha junto). Leary que foi quem introduziu os Beatles à LSD e tinha muita abertura com eles.

Inclusive uma tensão entre Lennon e McCartney, pois no verso “Shoot Me”, fala por Lennon, Paul toca o baixo mais forte em cima para ocultar essa expressão, que faz apologia ao uso de drogas. Isso deixou Lennon Furioso.

A canção é uma das mais conhecidas da carreira do grupo e até hoje é tocada no mundo todo, porém, ainda à época os Beatles foram acusados de plágio em versos modificados da canção, tudo logo foi resolvido. Um verdadeiro hino dos Fab Four.

Logo em seguida, temos uma das canções mais espetaculares da história da música mundial. Se antes Harrison era relegado a segundo plano, após Abbey Road isso mudou radicalmente, principalmente após a criação da belíssima “Something”, uma balada feita para sua então esposa, Patti Boyd.

Harrison escreveu a letra inspirado na canção “Something In The Way She Move” de James Taylor e a canção foi dada a Joe Cocker, mas depois voltaram atrás e George gravou a música. Só para se ter ideia da importância da canção, ela foi regravada por inúmeros artistas, inclusive da importância de Elvis Presley e Frank Sinatra, que considerou “Something” a mais bela canção romântica do século.

Mais uma de impacto é a bela “Oh! Darling” que McCartney gravou pensando no estilo de vida dos anos 50, uma bem divertida canção que graças ao talento musical de cada Beatle, a levou ao sucesso. Paul teve que se preparar por três dias para gravá-la, pois queria que sua voz saísse o mais potente possível. Uma menção também à sua maravilhosa linha de baixo, digna dos maiores baixistas de todos os tempos.

Já em “Octopus´s Garden” é o lendário Ringo Starr quem dá as caras nos vocais. A letra surgiu após uma viagem do baterista à Itália, na Sardenha, durante período de férias, ele se deparou numa excursão turística que falava sobre a vida dos polvos. Durante o passeio, a guia explicou como era a rotina de proteção dos polvos contra ataques, que consistia em juntar várias pedras coloridas em frente às suas tocas, formando uma espécie de jardim.

Harrison ajudou o amigo Starr na composição e deu a ele os créditos totais da música. A letra é bem simples e até infantil, mas graças ao talento e competência musical dos Beatles, além da enorme simpatia de Ringo Starr, a canção ficou muito conhecida e querida pelos fãs da banda até hoje.

Em “I Wan´t You (She´s So Heavy)”, Lennon demonstra seu amor à Yoko Ono, que já permeava o ambiente dos Beatles naqueles tempos. É uma das canções mais longas da história da banda e foi formada por duas melodias inacabadas.

Nela também está uma grande dúvida, pois a canção se encerra de forma muito abrupta e nunca ficou claro qual o real motivo. Dizem que Lennon pediu ao engenheiro de som que fizesse isso propositalmente, para gerar um clima de silêncio inesperado e outra versão é que o rolo da fita teria mesmo acabado durante a gravação.

Mais um clássico vem logo a seguir, a maravilhosa “Here Comes The Sun” outra pérola de George Harrison, que definitivamente mostrava seu talento de compositor e saía da sombra de Lennon e McCartney. A letra nasceu após um dos vários dias de brigas dos Beatles e após um desses dias ele foi até a casa do amigo Eric Clapton para desabafar e quando o dia já estava nascendo, veio a inspiração para a música, cuja mensagem da letra é de que sempre o sol nasce após dias difíceis, algo como o velho dito popular “Depois da tempestade vem a bonança”.

Aqui vemos a presença dos artefatos eletrônicos no disco, o sintetizador Moog é bem evidente e marca a canção. George era fã de automobilismo e muito amigo do piloto brasileiro Emerson Fittipaldi, quando este se acidentou durante uma corrida em 1996, Harrison vez uma versão especial a ele, que honra!

Em 26.09.2019, para comemorar os 50 anos de “Abbey Road”, foi lançado um belíssimo videoclipe no YouTube com uma versão remasterizada da canção e que imediatamente fez sucesso junto aos fãs com milhares de visualizações.

“You Never Give Me Your Money” é outro hit do disco e um verdadeiro pout-pourri de canções inacabadas de Lennon e McCartney. Paul criou a letra e expressou sua insatisfação com os rumos do grupo, principalmente os financeiros, em especial seu descontentamento com o empresário Allen Klein. Além disso ele também fala sobre perspectiva de vida, sonhos e até sons de bichos entraram na canção. Há também alguns trechos da canção “Carry That Weight”.

Para fechar, temos a já citada “Carry That Weight”, onde McCartney fala dos problemas que os Beatles passavam naquela fase, principalmente de relacionamento e do controle das finanças da banda. A melodia é a mesma de “You Never Give Me Your Money”.

A gravação foi feita pensada na união de praticamente três canções: “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End”, como se fosse uma só.

Sinceramente, falar dos Beatles não é fácil, chega ser até delicado, haja vista a veneração que seus fãs tem por eles. Penso que “Abbey Road” só pode ser comparado a “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” em termos de qualidade e importância. O material produzido nesse álbum é tão espetacular que mesmo após 50 anos do seu lançamento ele continua influente e não à toa ele está em todas listas de melhores discos da história.

Mesmo após tanta briga entre os integrantes, eles conseguiram gravar um disco que somente músicos diferenciados conseguiriam. Foi aqui que Harrison se consolidou como compositor, que a eletrônica apareceu nos discos dos Beatles, que apareceu mais do que nunca a qualidade do trabalho daquele que é considerado o quinto Beatle, o produtor George Martin, que trabalhou muito na produção meticulosamente pensada do disco e a visão discordante dos integrantes foi importante para qualidade final do álbum. Em termos de vendas, é o segundo disco mais vendido da história dos Beatles com mais de 31 milhões de cópias até 2014.

Todo fã de música boa deveria ouvir atenciosamente esse clássico da música popular e entender como se fazia música de verdade naqueles tempos, onde você tinha simplesmente a maior dupla de compositores da história da música, John Lennon e Paul McCartney e na mesma banda um George Harrison que deu sua preciosa e respeitada contribuição, além obviamente do talento do baterista mais influente da história, Ringo Starr.

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