SECOS & MOLHADOS com seu brilhante disco de estreia.

Em 1973, o Brasil passava por momentos difíceis, tal como hoje, mas naquela época havia a ditadura militar e a censura, por isso muitos artistas sofreram com a falta da liberdade de expressão e sofreram também com racismo e guerras, em meio disso tudo, o país via nascer uma banda que iria revolucionar a indústria fonográfica na época e viu seu maravilhoso disco de estreia ser um fenômeno de vendas e até mesmo para os padrões de hoje é bem significativo, estou falando dos Secos & Molhados.

Com seu famoso visual com forte uso de maquiagem e do icônico vocalista e um dos maiores cantores da MPB, o sul-mato-grossense Ney Matogrosso, que pouco tempo depois entraria numa bem- sucedida em carreira solo e que junto com os parceiros João Ricardo, fundador da banda e responsável pela maioria das composições e Gérson Conrad, lançaram o seu primeiro disco, o autointitulado, “Secos & Molhados”,  em agosto daquele mesmo ano.

“Secos & Molhados” vendeu mais de 1 milhão de cópias, batendo todos os recordes até então e com 13 faixas em aproximadamente 31 minutos, se tornou um dos álbuns mais importantes da história da MPB. Algumas letras retratam bem o cenário da época, como a ditadura, falta de liberdade de expressão, mas, a maioria das canções são originárias de poesias musicadas ou mesmo inéditas, principalmente dos poetas Vinicius de Moraes, Cassiano Ricardo e Manoel Bandeira, cujos versos foram musicados pelo fundador da banda, João Ricardo, cujo pai, João Apolinário, era jornalista e poeta, e ele acabou repassando ao filho alguns de seus poemas e que foram musicados para entrar no disco.

Foi um disco inovador e que mistura diversos ritmos, seja rock, música portuguesa, folk, pop psicodélico, jazz e baião, sempre com belos arranjos e melodias agradáveis. A emblemática capa do disco foi feita pelo fotografo Antonio Carlos Rodrigues, que organizou uma mesa de jantar com produtos vendidos em armazém, os ditos Secos & Molhados, e nessa mesa estão em bandejas, as cabeças dos integrantes do grupo: Ney Matogrosso (Vocais), João Ricardo (Violões e vocais de apoio), Gérson Conrad (Guitarras, Violões e vocais de apoio) e Marcelo Frias (Bateria e percussão), que saiu da banda logo depois do lançamento do álbum.

Essa capa em 2001 foi eleita pelo jornal Folha de São Paulo com a melhor capa de LP da história da música brasileira. Nesse álbum, apenas Ney, João e Gérson, eram integrantes fixos da banda, que contou com outros músicos para a gravação do LP, os outros músicos foram: Willy Verdaguer (Baixo), Sergio Rosadas (Flauta), John Flavin (Guitarra e violão), Zé Rodrix (Piano, sintetizador e acordeão) e Emilio Carrera (Piano).

Secos & Molhados

Faixas:

  1. “Sangue Latino” (João Ricardo / Paulinho Mendonça) – 2:07
  2. “O Vira” (João Ricardo / Luhli) – 2:12
  3. “O Patrão Nosso de Cada Dia” (João Ricardo) – 3:19
  4. “Amor” (João Ricardo / João Apolinário) – 2:14
  5. “Primavera Nos Dentes” (João Ricardo / João Apolinário) – 4:50
  6. “Assim Assado” (João Ricardo) – 2:58
  7. “Mulher Barriguda” (João Ricardo / Solano Trindade) – 2:35
  8. “El Rey” (João Ricardo / Gérson Conrad) – 0:58
  9. “Rosa de Hiroshima” (Gérson Conrad / Vinicius de Moraes) – 2:00
  10. “Prece Cósmica” (João Ricardo / Cassiano Ricardo) – 1:57
  11. “Rondó do Capitão” (João Ricardo / Manoel Bandeira) – 1:01
  12. “As Andorinhas” (João Ricardo / Cassiano Ricardo) – 0:58
  13. “Fala” (João Ricardo / Luhli) – 3:13

Como são todas grandes canções, vou focar naquelas de maior sucesso na mídia, mas são todas excelentes! O álbum já abre com aquela que pra mim é a melhor música da banda, “Sangue Latino”, uma poesia musicada que fala sobre os povos latino-americanos e sua condição de resistência diante dos cenários adversos enfrentados pelos países dessa região.

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“O GRANDE ENCONTRO” da música nordestina (1996)

Foi uma canção marcante e regravada por vários artistas, inclusive ganhando uma versão em espanhol chamada “Sangre Latina”, o próprio Ney Matogrosso continua a cantá-la em seus shows. Ficou na posição de nº 40 entre as melhores músicas da MPB, após eleição feita pela revista Rolling Stone Brasil em 2017.

Logo em seguida vem talvez o maior sucesso da banda, “O Vira”, canção muito executada nas rádios, que faz referência à música portuguesa, com uma levada mais rock e foi considerada à época uma bem-humorada canção que fazia referência ao público gay, também fez muito sucesso com as crianças pelos passos de dança.

“O Patrão Nosso de Cada Dia” é mais uma poesia musicada por João Ricardo, bem melancólica e que ele fez um trocadilho ao “Pai Nosso”, quando o empregado religiosamente cumprimenta seu patrão, outra curiosidade são os sons de sinos tanto no início quanto no final da canção, que fazem referência ao horário de entrada e saída dos empregados nas empresas.

“Primavera nos Dentes” que logo de início lembra muito o grupo britânico Pink Floyd e sua canção “Breathe”, é outra canção que fala sobre o sistema e sobre a liberdade de expressão, é a mais longa gravada pela banda.

“Rosa de Hiroshima” é uma poesia musicada pelo guitarrista Gérson Conrad, poesia esta do grande Vinicius de Moraes que fala sobre os bombardeios feitos pelos EUA às cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945. É uma canção linda, tocante, emocionante! Sem dúvida uma das maiores da banda e de toda a MPB, sendo eleita pela revista Rolling Stone Brasil a número 69 entre as 100 maiores músicas brasileiras.

Secos & Molhados

Outras canções que merecem destaque: “Amor”, com suas linhas de baixo marcantes, feitas por Willy Verdaguer, em toda a canção; “Fala”, mais um poema musicado pela banda, com belos arranjos e a voz inconfundível de Ney Matogrosso, que mostrava ali o grande interprete que viria a ser.

“Secos & Molhados” é sem dúvida um marco na MPB, onde depois do seu lançamento foram quebrados todos os recordes de vendas e público na época, foi um disco cheio de criatividade, novidades e certamente suas letras são muito atuais, mesmo com quase 45 anos de seu lançamento.

É um álbum maravilhoso e que muita gente da atual MPB deveria obrigatoriamente ouvir, refletir e entender como se faz música de qualidade, mesmo num cenário totalmente adverso. Diria que é um álbum que mistura de tudo e agrada em tudo! Discografia básica pra quem gosta de música de qualidade. 

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