“Krig-ha Bandolo”, o primeiro do “Maluco Beleza” RAUL SEIXAS.

O Rock chegou ao Brasil nos anos 50 e desde então foi ganhando muitos fãs. Empolgados com aquele novo estilo musical cheio de energia com suas guitarras elétricas, batidas, linhas ritmadas de baixo e melodia fascinante.

Os adolescentes dessa época certamente se inspiraram em nomes como Chuck Berry, Little Richard e principalmente Elvis Presley para formar suas bandas. Todo esse movimento ocorreu mesmo com certo preconceito social que havia contra os roqueiros, que desde aqueles tempos já tinham uma marca registrada: a atitude.

Raul Seixas metamorfose ambulante
Raul Seixas e sua Metamorfose Ambulante em Krig-ha Bandolo. FOTO: saraiva.com.br

Um desses caras diretamente influenciado pelo novo som foi o baiano Raul Santos Seixas. Depois de algum tempo ele ficaria conhecido nacionalmente como RAUL SEIXAS, o “Raulzito”.

Após peregrinar na noite de Salvador, começou a fazer sucesso na sua terra natal, indo posteriormente ao Rio de Janeiro tentar a sorte na música. Lá chegou a gravar um disco com sua banda “Raulzito e Os Panteras” (1968), de pouquíssimo sucesso, e logo Raulzito estava de volta à Bahia.

Começou a trabalhar com produção musical, tendo os grandes nomes da Jovem Guarda trabalhando com ele e foi fazendo sucesso no meio. Lançou em 1971 o LP “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10”, que também não se saiu bem. Anárquico, teve problemas com a ditadura militar da época, que cortou várias de suas letras.

MPB clássica com BELCHIOR e seu revolucionário álbum “Alucinação” (1976).

“Eu Canto / Quem Viver Chorará” um dos melhores álbuns de FAGNER.

 A sorte de Raul só começaria a mudar em 21.07. 1973, quando ele lançou “Krig-ha, Bandolo!”, seu primeiro álbum solo, obtendo muito sucesso e reconhecimento nacional. No disco Raul Seixas mostra todo o seu enorme talento e genialidade.

Com letras ousadas, à frente de seu tempo, Raul Seixas falou tudo aquilo que queria sobre a sociedade da época e os valores que eram impostos por ela.

As letras foram um capítulo à parte. Àquela altura Raul já contava com um grande parceiro nas composições, Paulo Coelho, que ele conheceu depois de ler um artigo sobre extraterrestres.

Eles se deram tão bem que viraram parceiros musicais por muitos anos e inclusive escreveram a canção “Sociedade Alternativa”. A música foi um marco e fala de uma utópica irmandade, que de certa forma, teve como objetivo criticar a ditadura militar nos anos de chumbo no Brasil. Essa parceria é considerada uma das maiores e mais importantes da história da música brasileira.

Tendo tudo isso, Raul Seixas logo caiu no gosto popular e aos poucos as pessoas foram percebendo que ele não era apenas um cantor e compositor. Era muito mais.

O álbum conta com 12 faixas em aproximadamente 29 minutos, com Raulzito mostrando seu estilo único, sabendo muito bem trabalhar em estúdio, sendo um excelente arranjador e produtor. Raul Seixas teve a coragem de expor suas letras que falavam de filosofia, literatura, religião, misticismo, contestação e política.

O próprio nome “Krig-ha Bandolo” foi tirado de uma história em quadrinhos. É um grito do personagem Tarzan, cujo grito era justamente esse e significava “Cuidado, aí vem o inimigo!”.

Nesse trabalho, Raul Seixas estava acompanhado dos músicos: Jay Anthony Vaquer (Guitarra); Pedrinho Batera, Bill French e Mamão (Bateria); Miguel Cidras e José Roberto Bertrami (Piano); Paulo César Barros e Alex Malheiros (Baixo); Marco Mazzola (Pandeiro); Paulinho Braga (Berimbau); Luís Paulo (Teclados) e José Menezes (Banjo).

As canções são em sua maioria de Raul Seixas, exceto onde indicado abaixo:

FAIXAS:

LADO A

1. “Introdução: Good Rockin’ Tonight” (Ray Brown) – 0:50
2. “Mosca Na Sopa” (Raul Seixas) – 3:58
3. “Metamorfose Ambulante” (Seixas) – 3:58
4. “Dentadura Postiça” (Seixas) – 1:30
5. “As Minas do Rei Salomão” (Seixas / Paulo Coelho) – 2:22
6. “A Hora do Trem Passar” (Seixas / Coelho) – 1:50

LADO B

1. “Al Capone” (Seixas / Coelho) – 2:38
2. “How Could I Know” (Seixas) – 2:36
3. “Rockixe” (Seixas / Coelho) – 3:44
4. “Cachorro Urubu” (Seixas / Coelho) – 2:08
5. “Ouro de Tolo” (Seixas) – 2:51
6. “Meu Nome é Raul Santos Seixas (Vinheta)” (Seixas) – 0:51

Desse clássico, vamos destacar as mais conhecidas canções e falar um pouco da sua importância dentro do disco e na obra de Raul Seixas.

Após uma abertura com “Good Rockin’ Tonight”, na qual ele mostra toda a influência de Elvis Presley, ouve-se uma gravação de Raul aos nove anos. O álbum segue com uma canção emblemática e muito importante na carreira de Raul, que é “Mosca Na Sopa”. Com arranjos muito bem feitos e uma mistura de candomblé, berimbau, batucada, roda de capoeira, a música é puro rock n’ roll de primeira.

Raul Seixas e sua Metamorfose Ambulante em Krig-ha Bandolo.

Maravilhosos os sons de sintetizadores que imitaram uma mosca zumbindo no ouvido das pessoas. A mosca era Raul, mostrando que vinha pra ficar e dar trabalho, tirando o sono de todo mundo e dando seu recado de forma direta à sociedade e contra toda forma de abuso. A mistura de elementos dá o tom na canção, simplesmente espetacular.

 Logo após vêm um dos maiores hinos da música brasileira: Raul Seixas canta a sua eterna “Metamorfose Ambulante”. Este é um dos mais conhecidos sucessos da bela carreira de Raul Seixas. Simplesmente genial e mostra Raul na essência.

“Metamorfose Ambulante” de Raul Seixas é uma canção totalmente autobiográfica. Acompanhada por um arranjo excelente, dando toda a aura mística que ele teria dali em diante, aquela coisa encantadora e que cativou milhares de pessoas até os dias de hoje.

Mostra como as pessoas podem mudar e podem rever vários conceitos e opiniões, e assim viver da forma como se achar melhor. Um clássico absoluto!

“Al Capone” é rock na veia, bem dançante, uma sátira na qual ele fala de várias situações cotidianas. A música faz menções a Jimi Hendrix, Frank Sinatra, Lampião, Júlio Cesar, Al Capone e Jesus Cristo. O solo de guitarra de Jay Vaquer é sensacional e no final da canção Raul Seixas mostra seu lado contestador e amante de ciências como história e astrologia. É uma das composições da dupla Raul Seixas e Paulo Coelho.

“How Could I Know” é uma canção que Raul fez em homenagem ao seu grande ídolo, Elvis Presley, onde ele canta totalmente em inglês. É uma balada pop, bem diferente do resto do álbum. É uma bela canção e que em sua letra fala de partida e uma desilusão amorosa.

Raul Seixas metamorfose ambulante
FOTO: vejasp.abril.com.br

Para fechar os grandes clássicos do disco temos a icônica “Ouro de Tolo”, mais uma autobiográfica, que fala dos valores do ser humano, de se contentar com pouco e estar satisfeito com isso, de estar inconformado com situações adversas, ter força e vontade para mudar esse quadro. Um hino contra o inconformismo e um de seus maiores sucessos de toda a carreira.

Outras canções interessantes são “Dentadura Postiça”, que é uma crítica velada ao período da ditadura militar, e “As Minas do Rei Salomão”. Esta última também com Paulo Coelho. Tem toda a aura do misticismo das canções da dupla e mostra bem a influência de Bob Dylan para Raul Seixas.

Um espetacular disco de estreia esse é “Krig-ha Bandolo!”, que trouxe um Raul Seixas ávido por mostrar todo seu trabalho e alcançar o tão esperado sucesso, que foi conquistado quase que imediatamente após seu lançamento.

É uma referência musical a qualquer pessoa que goste de música de qualidade, não só pela estrutura das canções em si, que foram muito bem trabalhadas, com belíssimos arranjos, ótimos músicos, mas pelas letras, que seriam um diferencial na carreira de Raul.

Toda sua genialidade, misticismo, visão, inteligência e sentimento, puderam ser vistos nesse clássico do rock nacional e porque não falar de toda a MPB. A parceria entre Raul e Paulo Coelho virou célebre e uma das maiores da nossa música, mesmo que tenha durado apenas entre 1973-1978. Porém, o legado é eterno e até hoje as canções são muito cultuadas pelos fãs do “Maluco Beleza”.

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