“Sobrevivendo no Inferno” (1997), obra-prima dos Racionais MC’s

O rap surgiu no Brasil em meados dos anos 80, mais precisamente na capital paulista, São Paulo, e o que se viu de lá pra cá foi o crescente aumento do ritmo junto ao público brasileiro. Dentre os vários grupos que surgiram, um deles se destacou dos demais e fez fama a nível nacional, falo aqui do quarteto paulistano formado por Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, os Racionais MC’s.

As letras do grupo falam diretamente para a população mais pobre e oprimida, denunciando situações de racismo, preconceito, miséria, violência, crime organizado, abuso de autoridade policial, política, drogas e exclusão social. Os Racionais MC’s são considerados um dos grupos mais influentes da história musical brasileira.

Desde seu início em 1988 o grupo foi gradativamente conseguindo sucesso, inicialmente apenas em São Paulo, depois no país inteiro e o disco que contribuiu diretamente para isso foi “Sobrevivendo no Inferno” (1997), aquele considerado sua obra-prima e que abriu as portas do mainstream para o quarteto paulistano, tanto que é considerado o disco mais importante da história do rap brasileiro em todos os tempos.

Álbum dos Racionais MC's Sobrevivendo no Inferno
FOTO: KLAUS MITTELDORF

Esse foi o primeiro trabalho da banda que fez referência à textos bíblicos, também foi lançado por uma gravadora independente, a Cosa Nostra, sediada em São Paulo (SP). Ao todo são 12 canções em aproximadamente 72 minutos, com temas costumeiramente citados por eles em suas canções, como desigualdades sociais, miséria e racismo. A formação dos Racionais MC’s nesse disco é a clássica com Brown, Blue, Rock e Jay. As letras foram escritas pelos quatro, exceto onde indicado.

CançãoCompositorDuração
1“Jorge da Capadócia”Jorge Bem Jor2:17
2“Genesis”Mano Brown0:22
3“Capítulo 4, Versículo 3”Brown8:09
4“Tô Ouvindo Alguém me Chamar”Brown11:14
5“Rapaz Comum”Edi Rock6:20
6“Interlúdio”Rock2:35
7“Diário de um Detento”Brown / Jocenir Prado7:32
8“Periferia é Periferia”Rock6:00
9“Qual Mentira Vou Acreditar?”Brown / Rock7:42
10“Mágico de Oz”Rock7:38
11“Fórmula Mágica da Paz”Brown10:41
12“Salve”Brown / Ice Blue2:17

Gravadora: Cosa Nostra

Produção: Racionais MC´s e Gertz Palma

Duração: Aproximadamente 72 minutos

Falando dos maiores sucessos do disco, vamos abrir com aquela que talvez seja a maior canção da história do rap nacional, “Diário de um Detento”, com vocais de Mano Brown, se transformou num hino do gênero. Canção que foi tocada em todos os cantos, que todos sabiam a letra de cor e salteado, uma espécie de “Faroeste Caboclo” do rap. Hino não só para a classe baixa, mas também para a classe média e alta, pois era comum ver “Playboys” cantando a música a plenos pulmões.

 A letra foi baseada no diário do ex-detento Josemir Prado, mais conhecido como “Jocenir”, que estava no presídio do Carandiru na rebelião que ocorreu em 02.10.1992, quando 111 presos foram mortos pela polícia. Esse evento ficou conhecido mundialmente como “O Massacre do Carandiru”. Destaque também para o videoclipe dessa canção, que foi filmado dentro do presídio e foi muito premiado, um desses prêmios foi o de Escolha da Audiência da MTV Brasil em 1998 e em 2012 o jornal Folha de SP, o colocou na segunda posição na lista de melhores clipes brasileiros de todos os tempos.

Outra canção de destaque do álbum é “Capítulo 4, Versículo 3”, mais uma com vocais de Brown, que fala sobre racismo, discriminação, violência e que logo em seu começo traz dados estatísticos sobre esses temas. Tem um ritmo meio nebuloso e traz a referência à bíblia cristã, tema este que os Racionais MC’s começaram a citar nesse disco.

MPB com ALCEU VALENÇA e seu grande clássico, “Cavalo de Pau” (1982).

MPB com BELCHIOR e seu revolucionário “Alucinação”.

Mano Brown continua com “Fórmula Mágica da Paz”, que traz a visão de um morador sobre a difícil realidade de sua comunidade pobre. Fala dos acontecimentos à sua volta e preocupação com a morte e miséria cotidiana. É uma canção cantada em primeira pessoa e Brown a escreveu em 1996 quando morava no bairro Cohab em São Paulo.

 Mais uma que fala de lamentações e problemas é “Mágico de Oz”, cantada por Edi Rock, onde o tema principal é a desespero de alguém que se entrega às drogas.

 Fechando os grandes hits do álbum, temos “Tô Ouvindo Alguém me Chamar”, que fala a história de um cara que acabou de ser baleado a mando de um velho parceiro do crime, conhecido como “Guina”. Aqui ele relata sua vida no crime, suas memórias, arrependimentos, até sua morte.

 Esse álbum fez tanto sucesso que em 2018 foi transformado em livro e devido ao lançamento do livro, a COMVEST (Comissão Permanente para os Vestibulares) da UNICAMP, incluiu-o na lista de obras para o vestibular de 2020. Outra curiosidade é que em 2015, o então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, presenteou o papa Francisco com uma cópia do álbum durante sua visita ao Vaticano.

 Sem dúvidas que depois de “Sobrevivendo no Inferno” a carreira dos Racionais MC’s mudou para sempre, o grande sucesso do disco trouxe muita popularidade ao grupo e ao rap, que passou a ser conhecido em todo o país. As vendas superaram 1.500.000 cópias vendidas, o álbum figurou numa lista de 100 melhores discos da história da música brasileira, aparecendo na 14ª posição. Um feito gigantesco para os quatro rapazes paulistas que vieram de baixo mas chegaram ao topo, mostrando que a música da periferia tem vez e voz no Brasil

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