FAGNER em “Eu Canto / Quem Viver Chorará”.

O ano de 1978 foi um ano importante para Raimundo Fagner, já em janeiro ele ganhava os prêmios de melhor vocal solo, violão, compositor e show ao vivo, dados pelo Jornal da Música aos melhores do ano de 1977, porém, seu disco anterior “Orós”, não ia bem nas paradas e Fagner almejava conquistar a América, assim, o próximo passo seria gravar seu próximo disco nos Estados Unidos.

Depois de uma temporada fora ele voltava ao Brasil e lançava seu quinto álbum de estúdio “Eu Canto”, cujo nome é parte de um poema de Cecília Meireles. Fagner dedicou o disco aos seus pais.

Esse trabalho tem um estilo mais flamenco, mais acústico, com arranjos bem elaborados e toda a parte instrumental sendo tocada por grandes nomes da MPB que Fagner chamou para esse disco, com destaque para Alceu Valença, Robertinho do Recife, Amelinha, Chico Batera e Pedro Soler. Foi graças a esse disco que o cearense de Orós chegava à galeria dos grandes ídolos de massa da MPB.

MPB com ALCEU VALENÇA e seu grande clássico, “Cavalo de Pau” (1982).

MPB clássica com BELCHIOR e seu revolucionário álbum “Alucinação” (1976).

O sucesso de “Eu Canto “ também trouxe a Fagner muita dor de cabeça, pois das 09 faixas lançadas, houve uma em o cantor foi acusado de plágio pela família da poetisa Cecília Meireles, a canção “Motivo”, que foi musicada por Fagner e lançada sem a autorização da família.

Graças ao processo judicial movido e ganho pela família da poetisa, o álbum foi relançado sem essa faixa e em seu lugar foi colocada a canção “Quem Me Levará Sou Eu”.

Além disso, o álbum ganhava um novo nome também, Quem Viver Chorará”. Para esse álbum, Fagner contava com os seguintes músicos: Ife (Baixo e Violão), Ozias (Baixo), Robertinho do Recife (Guitarras), Chico Batera (Bateria e Percussão), Manassés (Cavaquinho e Viola), Dino (Violão de 7 cordas), Aizik Melachi e José Alves (Violinos), Nelson Macedo (Viola), Pedro Soler (Guitarra Flamenca), Amelinha e Alceu Valença (Backing Vocal).

Faixas:

  1. “Revelação” (Clodo, Clésio)
  2. “Jura Secreta” (Sueli Costa, Abel Silva)
  3. “Acalanto Para Um Punhal” (Robertinho de Recife, Herman Torres, Fausto Nilo)
  4. “Punhal de Prata” (Alceu Valença)
  5. “As Rosas Não Falam” (Cartola)
  6. “Motivo” (Raimundo Fagner sobre poema de Cecília Meireles)
  7. “Pelo Vinho e Pelo Pão” (Zé Ramalho)
  8. “Cigano” (Fagner)
  9. “Quem Viver Chorará” – Instrumental (Fagner)
  10. “Quem Me Levará Sou Eu” (Dominguinhos)

Logo de saída temos um dos maiores sucessos da carreira de Fagner, “Revelação”, que é uma canção bem marcante, com um arranjo belíssimo e mostra todo o poder vocal de Fagner, com sua voz rasgada, falando de amor e relacionamento. A destacar também nessa faixa a participação do excelente guitarrista Robertinho do Recife, que durante toda a canção mostra toda sua categoria com belas melodias e um solo maravilhoso logo no início da música.

“Jura Secreta” é mais uma grande interpretação do cearense, porém, essa canção já havia sido regravada pela cantora baiana, Simone. É mais um dos casos que a regravação acaba ficando melhor que a original. A canção, existencial, com uma bela melodia juntada à voz única de Fagner, criou-se mais um sucesso.

“Acalanto Para Um Punhal” tem uma levada bem flamenca e é uma canção do guitarrista Robertinho do Recife, que inclusive participou da gravação e o resultado foi uma bela canção com um arranjo diferente da original, destaca-se a participação de Pedro Soler tocando guitarra flamenca.

“Eu Canto / Quem Viver Chorará” (1978) – FAGNER

“Punhal de Prata” é uma canção de Alceu Valença, que fez backing vocal na nessa versão. O arranjo ficou muito bem feito e é mais uma música que fala de amor, mas numa levada de baião, bem nordestina.

“As Rosas Não Falam” um clássico do ícone do samba, o “Poeta das Rosas”, Cartola, foi mais uma regravação com a marca registrada de Fagner, que não causa nenhuma mácula à primeira versão. O tradicional cavaquinho se faz presente e em conjunto com violinos e violão de 7 cordas, mostrou-se que pôde se conciliar vários instrumentos e obter um arranjo à altura de uma canção tão bela. Foi uma bela junção da voz e interpretação de Fagner, arranjos de cordas e a letra maravilhosa de um dos melhores sambistas de todos os tempos. Resultado: sucesso.

“Motivo” é mais um poema de Cecília Meireles que Fagner musicou, e aí começou o problema já que a família da poetisa acionou judicialmente o cantor, não somente por “Motivo”, mas por “Canteiros” sucesso do primeiro disco de Fagner, “Manera Fru Fru, Manera” de 1973. A questão se arrastou por muito tempo, já em 1994 quando o álbum foi lançado em CD, a gravadora colocou “Motivo” e novamente houve uma ação judicial pela família Meireles contra Fagner e a música novamente foi excluída, um detalhe é que o cantor sempre dividiu os créditos da canção com a poetisa, mas com a confusão toda, todos os álbuns foram retirados das lojas e ele foi relançado com uma nova faixa no lugar, a canção “Quem Me Levará Sou Eu”, que Fagner interpretou e ganhou o festival de 1979 da Rede Tupi . Polêmicas à parte, a canção é belíssima e Fagner mostrava porque sabe musicar poemas como poucos na MPB, para essa canção ele contou com a participação especial de Amelinha nos vocais.

“Pelo Vinho e Pelo Pão” é uma canção do grande Zé Ramalho, mas Fagner a gravou primeiro e o Profeta do Apocalipse só viria a gravá-la no seu segundo álbum, “Zé Ramalho 2” (1979). É um repente que ganhou um arranjo muito bem feito por Fagner, cuja gravação ficou parecida com a de Zé.

“Cigano” é uma das poucas composições exclusivas de Fagner nesse álbum, novamente com a participação brilhante de Robertinho do Recife na guitarra flamenca e Manassés no cavaquinho.

“Quem Viver Chorará” é uma canção instrumental num estilo Chorinho e mais uma vez o talento de Manassés aparece no cavaquinho, excelente canção.

“Quem Me Levará Sou Eu” é uma canção de Dominguinhos que foi interpretada por Fagner para o festival da TV Tupi em 1979 e foi a canção vencedora. Essa foi a canção escolhida para substituir “Motivo” no relançamento do álbum após todo o imbróglio jurídico.

“Eu Canto – Quem Viver Chorará” é um dos melhores trabalhados de Fagner e um dos mais vendidos, pois naquele ano ele rivalizou até com Roberto Carlos, superando a marca de 1 milhão de cópias, algo que jamais tinha acontecido antes na carreira de Raimundo Fagner.

Como se viu, a grande maioria das faixas já havia sido gravada antes por algum artista, mas Fagner consegue dar sua cara e de forma alguma deixa a desejar se comparando às versões originais, diria até que algumas ficaram bem melhores. Os arranjos de cordas ficaram excelentes e isso vai em grande parte aos ótimos músicos que trabalharam nesse disco, como Robertinho do Recife, Manassés e Pedro Soler, o uso de violinos e outros instrumentos também somaram positivamente nas gravações. Infelizmente houve o problema com a faixa “Motivo”, que é uma das mais belas do álbum e não pôde ser mais comercializada, se não houvesse o problema jurídico o sucesso do álbum seria maior ainda, com certeza.

Daí pra frente o resto é história e Raimundo Fagner viria a se tornar um dos cantores mais populares e queridos da música brasileira e também com muito sucesso na América Latina, com inúmeros sucessos, sempre com muita qualidade em suas composições e interpretações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *