O poeta CAZUZA e seu best-seller “Ideologia”, de 1988.

Na segunda metade dos anos 80, o carioca Agenor de Miranda Araújo Neto, há bastante tempo não era mais conhecido pelo seu nome de batismo. Àquela altura ele já era um astro do rock brasileiro. Certamente se você perguntasse a qualquer pessoa se ela conhecia Cazuza, ela saberia de quem estávamos falando.

Durante a sua vida ele teve fases bem distintas. Ficou conhecido por ser rebelde, boêmio e muito polêmico.

No ano de 1981, ao lado dos amigos Roberto Frejat, Dé Palmeira, Maurício Barros e Guto Goffi, Cazuza fundou o Barão Vermelho. Esta foi uma das bandas mais importantes da história do rock nacional. Cazuza era o grande nome dessa formação. Ao lado de Frejat formou uma das maiores parcerias do rock brasileiro.

“Ideologia” é uma overdose de talento de Cazuza

Cazuza, Ideologia
CAZUZA – Foto: g1.globo.com

Já em 1985, após três discos com o Barão, Cazuza decide sair no auge do sucesso da banda e se lança em carreira solo. Ele alegou que precisava de mais liberdade artística e que não dividia nada, muito menos o palco,. Isso acabou gerando uma grande confusão com os outros membros da banda.

No mesmo ano, Cazuza começaria a gravar seu primeiro disco solo. Foi nessa época que apareceram os primeiros problemas de saúde, resultando em internações e alguns anos adiante ele seria diagnosticado com vírus HIV.

Após gravar alguns discos, Cazuza lançou em 1988 o seu terceiro e mais aclamado disco (por crítica e público) que foi o excelente “Ideologia”. Mais intimista, o disco mostra um Cazuza em outro estágio da vida. Já debilitado por conta do HIV, ele fala abertamente da sua relação com a AIDS e a morte.

O álbum conta com 12 faixas em aproximadamente 44 minutos de um som bem conceitual, com muito Rock N´Roll, Blues, MPB e Bossa Nova.

As letras são um capítulo à parte. São sensacionais como de praxe em se tratando de Cazuza, que não deixou seu lado polêmico de lado. Ele fez duras críticas à classe política brasileira, além de abordar questões religiosas e existenciais.

Seus belos versos de amor também fazem parte do disco e ficaram marcados para sempre nessa bela obra. Ajudaram a colaborar no álbum os músicos Nilo Romero (Baixo), Sergio Della Mônica e Cláudio Infante (Bateria), William Magalhães e João Rebouças (Teclados) e Ricardo Palmeira (Guitarra).

Um ponto de polêmica também foi a capa do disco, que possui diversas imagens e dentre elas uma suástica nazista e uma estrela de Davi misturadas. Isso logo despertou comentários dos mais diversos, que foram abafados com o sucesso do álbum.

“Ideologia”: crítica ao Brasil e referência ao HIV

 Vamos destacar aqui algumas canções do álbum, que já abre espetacularmente com a faixa-título “Ideologia”. É uma canção muito forte. Foi escrita com seu amigo Roberto Frejat e uma das primeiras letras que Cazuza escreveu quando descobriu que estava com o vírus.

Nos versos ele deixou isso bem explícito: “O meu prazer agora é risco de vida”.

Mas a canção não se resume à agonia do cantor em seu estado de saúde. Ela também é uma crítica à juventude da época que não se posicionava politicamente e via as coisas acontecerem sem tomar nenhuma atitude.

Em 2009, a revista Rolling Stone Brasil a elegeu entre as 100 melhores músicas brasileiras da história, ficando na posição de número 83 numa pesquisa realizada. Um clássico do disco e da carreira de Cazuza.

O fantástico GUILHERME ARANTES, com “Despertar” (1985), clássico da MPB

MPB com ALCEU VALENÇA e seu grande clássico, “Cavalo de Pau” (1982).

O “Brasil” de Cazuza foi gravado por Gal Costa

Outra canção explosiva viria em “Brasil”. Esta música foi um verdadeiro tapa na cara da sociedade brasileira. Cazuza a compôs ao lado de George Israel (Kid Abelha) e Nilo Romero.

Uma letra bem direta para aquele Brasil que acontecia nos anos 80. E por que não o país atual também? Naquela época imperava o descaso com a população, roubalheira na classe política e em meio a isso havia um país sem qualquer perspectiva de melhoria.

Daí a crítica contra a manipulação do povo brasileiro por parte dos políticos e outras instituições. O que ajudou muito na popularização da música foi a versão que a cantora Gal Costa gravou para a novela Vale Tudo (1988), da Rede Globo, sendo a trilha de abertura.

Um verdadeiro rebuliço nacional aconteceu e a canção virou um hino. Até hoje é executada. Certamente porque o país de lá pra cá não mudou tanto assim. Mais uma obra de arte de Cazuza e com certeza um dos seus maiores sucessos da carreira.

Cazuza canta sua “Vida Fácil”, uma crítica à burguesia

Cazuza, Ideologia
Foto: genius.com

Outra canção importante do disco é “Um Trem Para as Estrelas”, que ele faz uma crítica à condição que o brasileiro em geral se encontrava. Uma reflexão sobre a situação de escravo do sistema e até põe em cheque a crença em Deus.

Aos olhos do cantor parece inoperante, tudo isso num tom melancólico, bem diferente da versão do outro compositor da música, o baiano Gilberto Gil.

Mais uma de sucesso é “Vida Fácil”. Nesta música, Cazuza nem aparenta que vivia as festas da burguesia, já que vinha de família de ótima condição financeira. Seu pai, João Araújo, era simplesmente o fundador da gravadora Som Livre, das organizações Globo, por onde ficou por 38 anos no comando.

A letra da canção fala do modo de vida da burguesia que geralmente é rica e fútil ao mesmo tempo. Cazuza tinha propriedade para falar do assunto, pois ele conseguia muito bem separar as coisas e ver os dois lados da história.

Em “Faz Parte do Meu Show”, o rock dá lugar à bossa

Outro grande sucesso do disco e da carreira do carioca é a belíssima “Faz Parte do Meu Show”.

A canção inicialmente seria voltada mais para o rock. Após uma análise junto a Walter Franco, convidado para trabalhar na faixa, resolveram mudar o arranjo. Deram um ar de bossa nova à música e o resultado foi simplesmente espetacular.

 O sucesso foi tamanho que essa canção foi a mais tocada no país inteiro no ano de 1988 . E em segundo lugar ficou “Ideologia”, também de Cazuza.

Se alguém tinha dúvida da capacidade de Cazuza como artista, depois desse disco isso acabou por completo. “Ideologia” é, sem dúvidas, uma obra de arte na carreira desse grande gênio da música brasileira.

Até a implacável imprensa se rendeu ao talento dele e fez boas críticas ao disco. Posteriormente o álbum também ganhou vários prêmios importantes. Levou o prêmio Sharp como o melhor disco de 1988 e o famoso Troféu Imprensa por “Faz Parte do Meu Show”, como a melhor música de 1988.

Felizmente, Cazuza pôde aproveitar desse sucesso ainda em vida. Ele morreria em 07.07.1990, aos 32 anos. Em geral, os grandes nomes da MPB que eram amplamente reconhecidos pelos seus trabalhos na época, não negara a qualidade e talento empregados no disco.

Se ainda não conhecem, recomendo que ouçam atentamente esse disco. Verão que muita coisa escrita há 32 anos ainda está em evidência, talvez até nunca saia de moda. Isso o tempo dirá.

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