MPB com BELCHIOR e seu revolucionário “Alucinação”.

Falar de Música Popular Brasileira (MPB) nos dias de hoje é totalmente diferente do que era falado nos anos 70, mais precisamente em 1976, ano que foi lançado um dos álbuns mais importantes e revolucionários da nossa MPB, “Alucinação”, de Belchior.

“Alucinação’ foi o segundo álbum de estúdio do gênio nordestino chamado Antônio Carlos Belchior, ou simplesmente Belchior. Nesse clássico disco ele retratou tão bem o que o país passava na época e que os jovens e adultos acabaram assimilando e se identificando imediatamente.

Sobre o nome do álbum, segundo o próprio Belchior: “Viver é mais importante que pensar sobre a vida. É uma forma de delírio absoluto, entende?”. Foi após esse disco que Belchior se transformou em ídolo de massa, já que ele vendeu mais 500 mil cópias e dali em diante o cearense de Sobral se tornaria um dos maiores intérpretes e compositores da história da MPB.

Belchior fala da ditadura militar em canções de “Alucinação”

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“Alucinação” tem 10 faixas em aproximadamente 37 minutos e conta com alguns dos maiores clássicos de Belchior. Destaca-se nessa obra-prima musical as letras excepcionalmente bem feitas. Com diversas frases de efeito, as canções falavam principalmente da ditadura militar pesada da época, das dificuldades na cidade grande, do sonho hippie e da juventude.

Uma curiosidade é que as canções “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida“, foram gravadas por Elis Regina em 1976, o que redeu mais popularidade a Belchior.

Os músicos que participaram do álbum foram: Antenor Gandra (Guitarra e Violão), Rick Ferreira (Viola, Pedal Steel), José Roberto Bertrami (Piano, sintetizador e arranjos), Paulo Cesar Barros (Baixo) e Pedrinho Batera (Bateria). Todas as faixas foram compostas por Belchior.

Faixas:

LADO A:

  1. “Apenas um Rapaz Latino Americano” – 4:17
  2. “Velha Roupa Colorida” – 4:49
  3. “Como Nossos Pais” – 4:41
  4. “Sujeito de Sorte” – 3:56
  5. “Como o Diabo Gosta” – 2:33

LADO B:

  1. “Alucinação” – 4:52
  2. “Não Leve Flores” – 4:11
  3. “À Palo Seco” – 2:56
  4. “Fotografia 3X4” – 5:27
  5. “Antes do Fim” – 0:59

Chega a ser redundante falar que todas as letras são maravilhosas, mas, vou procurar ser sucinto e dar a devida importância a cada uma.

Em “Alucinação”, Belchior critica a Tropicália

O álbum abre logo com um dos maiores sucessos de Belchior, “Apenas um Rapaz Latino Americano”, que em sua letra fala da ditadura militar no Brasil e naquela época os artistas eram alguns dos principais perseguidos pela ditadura. Belchior acabou por expressar na letra tudo aquilo que as pessoas sentiam naquele momento.

Devido a seu grande sucesso, “Apenas um Rapaz Latino Americano” acabou fazendo com que Belchior também fosse conhecido em textos jornalísticos.

Para quem não sabe, no verso: “Em que um antigo compositor baiano me dizia, Tudo é divino, tudo é maravilhoso”, é uma crítica ao movimento cultural Tropicália, que existiu no final dos anos 60. O antigo compositor a que Belchior se refere é Caetano Veloso, que compôs a canção “Divino, Maravilhoso”, canção esta que em 1968 se tornou um marco contra a ditadura militar.

ROBERTO CARLOS e seu fantástico “Roberto Carlos” (1971).

“O Rappa Mundi” (1996), obra-prima de O RAPPA.

Elis Regina gravou músicas de Belchior

“Velha Roupa Colorida” é uma canção que fala de juventude, com suas fases e das mudanças que acabam acontecendo com os jovens até virarem adultos. É uma canção que foi gravada por Elis Regina no seu álbum “Falso Brilhante” , de 1976, e ficou muito conhecida pelo público.

Outra canção gravada por Elis foi “Como Nossos Pais” e que acabou ficando mais conhecida na voz dela que na de Belchior. É uma poesia linda, bem ao estilo Belchior, que fala ao mesmo tempo sobre amor, juventude, ditadura, mudanças, atitudes, lembranças, tudo junto e misturado, sendo tudo brilhante.

Tão brilhante que ela também saiu no álbum “Falso Brilhante” , de Elis. É considerada um dos maiores clássicos da MPB e está entre as 100 maiores músicas brasileiras de todos os tempos, eleição feita pela edição nacional da revista Rolling Stone em 2009.

Letras de Belchior em “Alucinação” são autobiográficas

Já a música “Sujeito de Sorte” tem uma letra forte e fala das angústias e sofrimentos do cantor. É uma letra bem pessoal e marcante. “Como o Diabo Gosta” é curta e direta. Retrata bem aquele momento de repressão, tortura e perseguição. O que dizer desses versos?: “E a única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter; é nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer. Nunca reverenciar.” Simplesmente Belchior.

“Alucinação, a faixa título do álbum, é o mais puro retrato cruel das grandes metrópoles brasileiras. São versos de quem passou por maus bocados no início de carreira numa cidade grande. Uma letra muito autobiográfica e extensa, porém, excelente.

Belchior: crítica social e engajamento político

“Não Leve Flores” retrata o fim do sonho hippie, fala de uma reflexão do que ocorreu naqueles tempos de amor, sexo, drogas e rock n´roll. “A Palo Seco” é mais uma daquelas que mostra todo o descontentamento do artista com aqueles tempos. Um de seus versos que ficou muito conhecido mostra bem esse sentimento: “E eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês.” 

“Fotografia 3×4” pra mim é uma das maiores canções autobiográficas de um artista e ele conseguiu ser bem claro nos seus versos. Falando da sua saga numa cidade grande, vindo do norte do país. Quanto sofrimento e verdade estão nessa letra.

Ele novamente alfineta Caetano Veloso num dos versos da canção: “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua”. Aí ele mostra que não estava pra brincadeira.

Fechando o disco temos “Antes do Fim”, cujos versos podemos até falar que são bem mais otimistas que os das letras anteriores, mas ainda temos versos bem verdadeiros: “não tome cuidado comigo, porque eu não sou perigoso, viver é que é o grande perigo”.

“Alucinação” é de 1976 mas esse álbum soa tão atual nos dias de hoje que você analisando as letras dessa obra-prima percebe uma autobiografia intensa. Belchior tinha grande engajamento político e por isso acabou se tornando um dos porta-vozes daquela geração de grandes cantores.

Letras maravilhosas, marcantes e diretas, misturadas com belíssimos arranjos e ótimos músicos, fizeram que esse disco se tornasse essencial na coleção daqueles que gostam de boa música.

Que falta faz Belchior diante do nosso atual cenário político, pena que nossos jovens estão crescendo e ouvindo coisas sem a menor qualidade e de péssimo gosto. É um álbum que recomendo e que sempre deve ser lembrado, viva Belchior!

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